Muita gente já "Penaud" para fazer um aeromodelo voar.

        Quem vê um hoje aeromodelo (moderno) que nunca voou, sabe que ele irá voar com certeza. Por mais mal feito, desbalanceado que esteja, nas mão de um piloto razoável voará. Também pudera: por mais simples que seja um rádio atual, é um equipamento digital, acionando servo-motores de respostas proporcionais, com ajustes finos (trims), etc.

        Depois de resolvido, qualquer problema se torna simples. Mas, e antes da solução? O sonho de vôo de aparelhos mais pesado que o ar é antigo, e a teoria também. Daniel Bernoulli, (aquele que disse que a pressão varia com o quadrado da velocidade) já sabia que um determinado corpo, com uma determinada forma (aerofólio) se imerso em um fluido e submetido a um escoamento apropriado, sofreria pressões dinâmicas, cujas diferenças poderiam levantar este corpo, isto já entre 1700 e 1782. O problema era como gerar este escoamento.

        É documentado que Alphonse Penaud, em 1871, gerou este escoamento em um .... aeromodelo, utilizando-se a energia de distorção de borracha para girar uma hélice. Eis o nascimento do aeromodelismo, através dos modelos à elástico, antes mesmo da aviação (visitem http://www.flyingmachines.org/pend.html)

        Entre outros, Samuel Langley (1834-1906) conhecia o problema e buscava resolve-los de modo a transportar um aparelho e um tripulante.

        Eis então que um brasileiro, baixinho metido, estragou o prazer de muitos, construindo um aparelho mais pesado que o ar e exibindo-se publicamente para uma multidão, no campo de Bagatelle em Paris, no dia 23 de Outubro de 1906 (alguns irmãos negam este fato, fartamente documentado, querendo para si o mérito do primeiro vôo "humano", mas, assim como conversa de pescador, sem foto não há fato). Alberto Santos Dumont foi um gigante, que quase um século após seus vários feitos, consegue ser admirado inclusive por um americano (leitura recomendada : Asas da Loucura, de Paul Hoffman).

        Mas convenhamos: o 14-bis era feio pra burro, tanto é que nunca mais se viu algo parecido além das réplicas construídas para respeitosamente homenagea-lo. Mas antes dele não existia referência alguma além das pipas (ou papagaios, ou pandorgas como queiram). Depois de acertada a configuração de asa(s) na frente, profundor e leme, tudo ficou mais fácil.

        O que dizer dos aeromodelos para vôo livre, ou seja, sem nenhum controle além de sua própria estabilidade? O primeiro vôo era uma incógnita. Iria subir ou descer? Rolar para a esquerda ou direita? Mas uma vez, encontrado o caminho das pedras, foi só copiar.

        Outro exemplo: embora outros já tivessem pensado em flaps, nos idos de 1950 o jovem George Aldrich desenvolveu o Nobler (visitem http://perso.wanadoo.fr/eduardo.affonso/historianobler.htm). A partir de então todo aeromodelo cabo-controlado passou a ter a "cara" do Nobler. Por mais que se queira reinventar a roda, nada é mais simples e certo que construir algo parecido com o Nobler. Pudera: sabe-se que funcionará.

        Sejamos honestos: os primeiros aeromodelos rádio-controlados eram pouco mais que modelos de vôo livre. O único comando era para guinada, tanto é que foram apelidados de "rudder only", ou somente leme. Tais modelos subiam, desciam, faziam curvas, loopings, "touneauxs" e pousavam somente com o comando direcional. E como ficava o primeiro vôo? Não existiam servos motores mas sim catracas acionadas pela velha e boa borracha torcida. O movimento era tudo ou nada. Mesmo assim existiram vários campeões.

        E o nosso querido Ugly Stik. Basta copia-lo, arredondar aqui, linearizar ali e pronto: não importa o tamanho tem-se um sucesso.

        Como uma justa homenagem, tem-se a planta publicada na revista American Modeler em Janeiro de 1960 do modelo Charger, um mono-canal (rudder only) que definiu um padrão a ser seguido. Observem os trajes e penteados.

 

 

 

 

 

 

        Portanto, antes de cada vôo, lembremo-nos dos pioneiros. E vamos em frente. Vamos descobrir e inventar coisas novas para que no futuro possamos ser lembrados.


Marcos Eduardo Alleoni de Oliveira
marcos@meao.eng.br