DE PAI PRA FILHO
Arley do Nascimento Cordovil
25 anos, Aeromodelista iniciante.
Belém – PA
Lembro-me
como se fosse ontem. Papai e mamãe arrumando tudo. Finalmente o grande dia
havia chegado. Esperei por tanto tempo...
Vou
explicar. Eu havia acabado de completar 10 anos. Papai sempre foi um assíduo
aeromodelista. Desde pequeno o via montando os próprios aviões... Lembro-me
dele dizendo que “os melhores são os que nós mesmos fazemos, pois são como
filhos, construímos e acompanhamos cada parte da montagem.” Assim eu acabei
me apaixonando pelo hobby. Mas ele dizia que eu ainda era muito pequeno pra freqüentar
a pista e que quando eu tivesse 10 anos, eu poderia acompanhá-lo.
Esse
dia finalmente chegou. Arrumamos tudinho, colocamos as coisas no carro, nos
despedimos de mamãe. Pegamos a estrada. Ele ria da minha ansiedade e contava
que na primeira vez dele também se sentiu assim. Dizia pra mim que um dia eu
iria pilotar um sozinho. Eu ficava mais e mais ansioso.
Chegamos
à pista e tiramos tudo do carro. Um lugar grande e aberto que, segundo ele, era
ideal para a prática do hobby. Ele me deu algumas instruções do tipo: “Olha
mas não mexe em nada” e “Fica sempre perto de mim, até eu ir voar, depois
você fica naquele banquinho ali.” Acompanhei toda a montagem da asa. Ele começou
a girar a hélice... Meu coração estava disparado... Girou uma, duas, três...
Comecei a ficar preocupado, mas ele disse que era assim mesmo... Girou quatro,
cinco, seis. Mexeu numa agulhinha, o motor quase pegou na sétima e morreu de
novo... Girou oito, nove, dez... não pegava.. outros colegas dele vieram
ajudar, e em meio aquele monte de adultos tentando fazer um único motorzinho
pegar, comecei a chorar e dizer que queria ir embora. Meu pai me consolava
dizendo que isso acontece. Pediu para eu olhar outros modelos que já estavam
voando, mas eu queria vê-lo voar. Não importavam os outros, eu queria ele. Mas
ele não voou. Algum problema impediu meu pai de voar e achei que eu é que
tinha estragado tudo. Ele me dizia que não era culpa minha mas eu não
acreditava. Achava que se não tivesse ido, ele teria voado e então decidi que
não iria, nunca mais, pisar numa pista de aeromodelismo.
Anos
depois meu pai me convenceu a montar um. Relutei. Mas era adulto, sabia que
aquilo que havia acontecido era passado. Depois de uns meses montando e
ajustando, tudo supervisionado por ele, pois era bem mais experiente que eu,
fomos pra pista e voei. Uma sensação maravilhosa de liberdade, de poder, de
vencer a gravidade. Era como se eu estivesse lá dentro. Voando mesmo. Nesse dia
entendi a magia do aeromodelismo. O Aeromodelismo acabava de ganhar mais um
adepto.
Bom,
casei e continuei minha empreitada. Tive outros modelos, montei uns e comprei
outros. Hoje tenho um filho. Ontem ele fez dez anos. Já tinha visto esse filme.
Ele sempre me pedindo para acompanhar a mim e ao avô. Mas não deixava. Prometi
a ele que com dez anos o levaria. Puxa, como dez anos passam rápido.
Mas
havia chegado a hora. Acordamos e começamos a arrumar tudo. Ele sempre em cima
de mim e do avô. Olhando e perguntando sobre tudo. Meu pai sorria, mas percebeu
meu nervosismo. Certa hora, ele levou-me para a cozinha e me disse: “O que
aconteceu no passado, não se repetirá. Confie em mim!” Nessa hora tive um
acesso rápido de choro. Toda a lembrança do passado me veio na cabeça, o
motor, as pessoas tentando ajudar e meu choro desesperado com um misto de
tristeza e raiva. Quase meu filho me pega chorando. Quando ele entrou na cozinha
me chamando para ir, estava abraçado a meu pai e ele me perguntou porque estava
abraçado, eu lhe respondi que estava assim porque amava muito meu pai. Nessa
hora ele me surpreendeu correndo, abraçando a mim e meu avô e dizendo que também
amava a gente. Que emoção... Segurei as lágrimas de felicidade que queriam
cair e disse: “Vamos gente! A pista nos espera!”
Entramos
no carro e quando chegamos, arrumamos tudo, desembarcamos os modelos, e
montamos. Meu filho sempre em cima. Recomendei-lhe cuidado e que não tocasse em
nada. As lembranças vinham vindo e eu ficando mais e mais nervoso. Parecia que
tudo aquilo era uma prova e que naquele momento eu teria que vencer, provar para
mim mesmo que meu filho não iria passar pelo que passei. Parece boba a coisa
toda, mas eu encarava com tamanha seriedade que suava “em bicas”.
Meu
pai decolou, num acesso de covardia disse ao meu filho que olhasse o vovô
voando. Ele então disse: “Papai, não me importam os outros. Quero ver o
senhor voando!” Os olhinhos dele brilhavam de ansiedade. Nessa hora, papai
balançou a cabeça e disse que eu decolasse de uma vez. Ele queria ver seu neto
sorrindo. Piscou para mim como se quisesse dizer: “Confie em mim!” Peguei o
modelo e girei: uma... duas... três... quatro... cinco, meu filho nervoso do
meu lado - seis... sete... oito... – comecei a ficar nervoso. Nove, dez, onze
e nada. Nem um sinalzinho de vida que fosse.
Meu
filho explodiu em lágrimas assim que os outros vieram e começaram a me ajudar.
Todos sentiam que ele estava triste e queriam fazer o motor pegar. Meu pai
passou a mão na cabeça dele e ele saiu correndo. Era uma criança, não iria
compreender que tem dias que não dá certo... Mas como explicar? E como conter
a minha própria fúria contra aquele aeromodelo que no final de semana anterior
pegava em no máximo duas tentativas... Como fazer? Corri atrás de meu filho.
Ele estava sentado, desconsolado. Chorava muito dizendo que a culpa era dele...
Que nunca mais viria à pista. Senti na pele o que papai sentiu comigo e olhei
para trás... Papai me fez um sinal de que pedisse uma última chance. Coisa que
ele não havia feito no passado. Nessa hora me senti maior do que a derrota.
Sentei com meu filho, pedi-lhe só mais uma chance. Se não desse certo iríamos
para casa. Ele me olhou, acho que viu meu senso de vitória e caminhamos até o
avião de mão dadas. Eram só uns metros, mas pareceram quilômetros. Respirei
fundo. Contei até três, fiz uma oração rápida e girei... O motor pegou!!!
Meu filho pulava, me abraçou forte. De repente o motor morreu... Ele olhou para
mim e disse: “vai papai, gire que vamos voar!!!”
Nesse
dia o Aeromodelismo ganhou mais um adepto. Um adepto mirim. Voamos juntos,
deixei-o mexer um pouquinho e assumi o controle. No fim da tarde, na volta pra
casa, - meu filho ia dormindo dentro do carro, com um sorriso estampado no
rosto, acho que estava sonhando ainda com os pequenos aviões que tanto encantam
a mim e aos outros adultos e crianças que gostam do hobby -, perguntei a meu
pai o que ele havia feito. Ele disse: “Incentivei-o a tomar atitude certa.
Nenhum homem desiste antes de pedir uma última chance. Lembra que quando
chegamos em casa, você foi para o quarto? Eu fui para a oficina, botei o modelo
em cima da mesa e girei o motor... ele pegou de primeira. Talvez se tivesse
pedido a última chance aquilo não tivesse acontecido. Assim meu filho, nunca
desista sem pedir uma última chance...” Agradeci a meu pai o conselho e segui
na estrada, feliz com tudo o que havia aprendido e mais ainda pelo meu pai ainda
estar comigo para me ensinar o que ele também aprendeu.
Hobby Esportes: Divulgação do aeromodelismo e lealdade com o desportista
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