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Nasce um Aeromodelista
(ou: Primeira Experiência – traumática – com o Aeromodelismo...)
Ney
Luiz Silveira Thys - Juiz de Fora
Estávamos no início dos anos 50; meu irmão mais velho e eu, por volta de 11 e 9 anos, duas crianças ávidas por novidades como qualquer outra, quando descobrimos nas Lojas Renner - em Porto Alegre, onde morávamos -, um setor de aeromodelismo. Já éramos apaixonados por aviões; colecionávamos todas as fotos que conseguíamos, em revistas ou jornais. Os modelos da 2.a Guerra então eram “o máximo”: não perdíamos um filme de guerra, principalmente aqueles onde se destacava a aviação.
Na loja ficamos sabendo que, sim, havia como construir modelos que voavam realmente. Que coisa maravilhosa! Havia os modelos a elástico, planadores e até ... motorizados! Entre aviões montados, caixas de kits, balsas e acessórios, o que de mais espetacular havia para nós eram os motores. Eram para vôo a cabo – U control – e nem fazíamos idéia do que aquilo era ou como funcionava. Mas os preços! Valores totalmente fora de nossa realidade – a mesada semanal. Então lá ficávamos, com o nariz colado nas vitrines, olhando, sonhando e imaginando como seria bom termos um aviãozinho que voasse de verdade.

- “Pai, nós vimos lá no Renner...” - foi a abordagem ao “velho” feita ao chegarmos em casa; tudo contado em tom que pudesse entusiasmá-lo, fazê-lo nosso cúmplice. Mas... pouco sucesso. No nosso consumista sistema de hoje, é comum uma criança dizer naturalmente, ao ver na TV a propaganda de um novo brinquedo: “Eu ainda não tenho este! Compra pra mim!” Já naquela época, as coisas eram bem diferentes das de hoje; presentes eram dados nos aniversários e no Natal... Nem havia Dia das Crianças!...
Naquele dia, nada foi dito nem prometido, e ficamos um bom tempo só com os sonhos, sempre que possível narizes colados à vitrine da loja.
Deve ter sido num sábado; o pai tinha ido ao centro e voltou com um embrulho que nos deixou curiosos; depois de perguntas sem resposta e de algum mistério abriu o pacote: era um kit para montar um avião! Na verdade, o kit era dos mais simples que existiam e ainda existem: fuselagem composta por uma vareta, sob a qual é passado o elástico que vai girar a hélice; asas de chapa de balsa de 1 ou 1,5 mm de espessura; assim também o estabilizador e o leme. Um arame e duas rodinhas de madeira para o trem de pouso...
De saída um pouco decepcionados – afinal, nos sonhos nosso modelo era mais sofisticado: chapas, varetas, entelagem, pintura, decalques -, logo racionalizamos e passamos a imaginar a montagem; afinal, havia uma planta e alguns passos a executar até ter o modelo completo. Então veio o primeiro balde de água fria: nós não, mas o pai é que iria montá-lo depois do almoço!

Assim foi: na mesa do escritório, os três ao redor da planta e das poucas partes, disputando quem faria o quê. Havia as extremidades das asas a recortar com tesoura, arame a dobrar... Nosso pai não era propriamente calmo e, também, descobrimos logo, não era muito habilidoso ou jeitoso. Seu nervosismo, com aqueles dois “pentelhos” palpiteiros perturbando o ambiente, foi aumentando até que: -“Para fora os dois! Esperem fora do escritório e fechem a porta!”
Segundo balde d’água: esperamos e esperamos, sentados no chão, às vezes com o ouvido na porta para adivinhar como ia o trabalho. De vez em quando se distinguia um “Merde!” (o pai era francês), significando que algo ia mal...
O problema é que, na época, não havia superbonder e araldites; a cola era a velha Aerobrás, especial para modelismo, muito boa, mas que requeria paciência, tempo... muitos minutos segurando as partes na posição, ou com elas fixadas à mesa aguardando a secagem. Definitivamente não era a área do nosso montador! Assim, sem paciência em esperar, a cada tentativa, ao ver que não obtinha a colagem, ele acrescentava mais cola, mais alguns alfinetes, um pouco de esparadrapo... a coisa ia ficando cada vez mais difícil.
Não sei dizer quanto tempo mais esperamos, mas finalmente a porta foi aberta e o modelo (meio “Frankenstein”...) nos foi apresentado, num razoável mau-humor: “Calma! Ainda não pode pegar, falta secagem, não pode ainda esticar o elástico. Vamos esperar para poder tirar o esparadrapo... os alfinetes ficam! Daqui a pouco vamos sair para testar se ele voa”.
A região hoje chamada de Alto Petrópolis, na Porto Alegre de então, era ainda pouco ocupada e construída. Mas muitos loteamentos já estavam definidos, com as quadras gramadas e vazias. O pai seguidamente enchia seu Austin A40 conosco, com primos, colegas e amigos e lá nos levava para jogar futebol. E foi para lá que fomos, dessa vez com o aeromodelinho nas mãos em vez da bola.
Algumas voltas no elástico da hélice, uma rápida orientação quanto ao vento, e lá se foi para os ares nosso modelo... arremessado pelo pai, naturalmente. Bem, aquilo voou mais ou menos, mas na aterrissagem lá se foi o trem de pouso. O mau-humor piorou um tanto. “Não faz mal, é tudo grama alta mesmo, vai sem rodas e agora é minha vez!”, disse meu irmão. Tudo bem, ele era o mais velho, eu ficaria com o terceiro vôo.
Hélice girada até esticar bem o elástico e zuum! Mal saiu da mão de meu irmão, o conjunto estabilizador/leme descolou e caiu; o restante – fuselagem e asas – subiu, tracionado pela hélice, até uma razoável altura. Fim da tração, situação revertida: foi a vez da gravidade e veio tudo pra baixo. Uma asa ainda se soltou antes do restante se desmanchar no impacto com o chão (num local de pouca grama...). A minha vez... o meu arremesso... já era!
Foi entre algumas lágrimas que vi o pai, dessa vez surpreendentemente calmo, recolher os destroços formando um montinho no chão; após acender um cigarro, aproveitou o fósforo para pôr fogo nas madeirinhas daquele que tinha sido, por uma hora talvez, nosso primeiro aeromodelo. E lá ficamos a olhar a pequena fogueira, frustrados tanto quanto crianças podem ficar (muito!).
Felizmente, crianças também se recuperam rapidamente desses “trauminhas”; em pouco tempo tínhamos guardado, das mesadas, o suficiente para comprar um outro kit; agora um Piper J3 a elástico, montagem estrutural, da Aerobrás. Esse seria construído por nós, bem como outros que se sucederam. Chegamos a montar uma réplica, em escala, do Super “G” Constellation, quadrimotor moderníssimo recém adquirido pela Varig para vôos transatlânticos, tendo desenhado todas as plantas a partir das muitas fotos do avião publicadas na ocasião.
Seguiu-se
a vida; outros interesses substituíram os aeromodelos, até que, há pouco mais
de 10 anos, meu filho mais velho, de quem já tenho netos, me telefonou: “Pai,
meu amigo fulano, que é comissário da Varig, trouxe um kit de aeromodelo
radiocontrolado, que eu “gamei”. Vamos comprar um em sociedade e você, que
tem experiência, poderia montá-lo?” Bem, a cumplicidade que faltara 40 anos
antes veio na hora e assim tivemos nosso “trainer” encomendado: O PT-40 da
Great Planes. O primeiro da nova série de modelos que venho montando e voando
até hoje, nesse maravilhoso hobby chamado Aeromodelismo!
Hobby Esportes: Divulgação do aeromodelismo e lealdade com o desportista
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