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Como escolher um veleiro
Sergio
Caetano
Não é raro ver um veleiro grande e promissor
abandonado em uma marina.
Quando isso acontece, eu me pergunto por que e em que momento
desmoronou o sonho de seu proprietário e, muitas vezes, a
resposta é a mesma: comprou o barco
errado.
Mas, como ter certeza que se está comprando o barco certo? O
primeiro passo para o
sucesso da compra é saber realmente o que se quer, ou seja,
quais são as expectativas
para aquilo que, com certeza, será um grande desembolso.
Você está planejando uma volta ao mundo, um cruzeiro de média
distância pela costa brasileira, ou velejadas de volta ao mundo
sem destino? Pretende disputar regatas competitivamente? Sua
tripulação rotineira será composta de mulher e filhos, amigos,
ou será um velejador solitário?
O segundo passo é conhecer
as características do porto
em que pretende deixar sua nova aquisição. Qual a profundidade
mínima, possibilidade de retirada do barco da água e
infra-estrutura para reparos e manutenção? Não deixe para
descobrir que o "travelift" da marina de seus sonhos só "puxa"
seis toneladas depois de já ter comprado um veleiro de oito.
Depois, procure saber quais as condições de mar e vento da
região em que irá navegar. A idéia de comprar um barco que
veleje sob quaisquer circunstâncias pode ser uma ilusão.
Antes de comprar meu atual barco, eu sabia exatamente o que
exigiria dele, e não era pouco. Teria que ser marinheiro e forte
o suficiente para atravessar o Atlântico; espaçoso para
comportar também minha mulher e meus três filhos nessa travessia
da Europa até o Brasil e deveria estar apto para me propiciar um
velejar prazeroso quando chegasse ao meu porto de destino.
Durante dois anos eu comprei, mensalmente, três revistas
náuticas inglesas: Practical Boat Owners, Yachting Monthly e
Yachting World, além da única da Irlanda - Afloat.
Morando na Irlanda, eu viajava freqüentemente à Inglaterra com
o único objetivo de procurar barcos, pois o mercado irlandês é
muito pequeno e bem mais caro. Quando já estava à beira do
desânimo, ou pior, à beira de comprar algo que não me serviria,
fui até Southampton para ver os barcos da regata
British Steel Challenge, que estavam prestes a zarpar.
Ali, na janela do escritório de brokerage inglês
Willians & Smithells, vi, pela primeira vez, a foto do
objeto de meu desejo. Dias depois, recebi em minha casa várias
fotos, o inventário de equipamentos e as especificações do
barco, que na época estava na Grécia. Um projeto da dupla
francesa Joubert-Nivelt, construído pelo estaleiro
Gibert Marine.
Se a compra de meu barco foi particularmente
difícil, a verdade é que de
uma maneira ou de outra, todas são.
A não ser que você possa sair na sexta-feira para dar um pulinho
no Dusseldorf Boat Show e comprar o Barco do Ano, não
existe compra fácil.
Tenha em mente que todo veleiro, exceção feita aos construídos
essencialmente para vencer regatas, está sujeito a um certo tipo
de comprometimento. Um embate
entre simplicidade e eficiência, velocidade e conforto,
performance no contra-vento e calado aceitável. Combinar
conforto, navegabilidade, estabilidade e performance com beleza
estética, não é tarefa fácil, e não são poucos os projetistas
que passam a vida buscando essa fórmula ideal.
É fato que todos querem um barco espaçoso e confortável, mas devemos
lembrar que, na maioria das vezes, esse aumento de espaço se deu
em função de uma diminuição de estabilidade e/ou navegabilidade.
Saiba que não será fácil pesar os pontos altos e baixos de um
veleiro simplesmente olhando para ele. Existe uma variedade
enorme de fatores sutis de projeto que determinam o desempenho
de um barco. Experiência certamente facilitará o trabalho de
diferenciar um veleiro excelente de um meramente regular, de
identificar um barco de difícil manejo ou lento em demasia.
Compreendidas essas questões você estará apto para começar o
trabalho cansativo e dispendioso de procurar o barco certo para
suas necessidades, e que caiba em seu bolso.
Visite vários barcos,
veleje em todos e vá,
pacientemente, percebendo as diferenças e descobrindo aquele que
melhor atende a suas expectativas.
Descubra qual é o seu número
O primeiro ponto a decidir é o tamanho, ou uma faixa de tamanho
que nos interessa, por exemplo: a faixa dos veleiros de 26 pés,
versátil e prática para velejadas rápidas. A faixa dos 32 pés,
oferece a possibilidade de cruzeiros de média distância,
navegando de Florianópolis ao Rio de Janeiro, em relativo
conforto enquanto a dos 36 pés permite longos cruzeiros e até
mesmo travessias oceânicas. Um 42 pés é um ótimo tamanho para
quem pretende viver a bordo. Oferece espaço, segurança,
facilidade de manobra e um custo de manutenção não muito alto.
São poucos os portos, no Brasil, que levantam barcos maiores que
esse.
Semi-novo ou 0km?
O segundo ponto a ser considerado é se a embarcação será nova ou
usada. O maior problema no mercado brasileiro de veleiros novos
é a falta de produto em estoque. E aqui é necessário uma mudança
de atitude tanto da parte de quem compra como de quem vende. Os
compradores devem compreender que um
veleiro bem feito não pode ser barato, deve ser
construído com materiais de qualidade e mão de obra
especializada.
Os estaleiros devem ter em mente que o melhor marketing de um
veleiro é ele próprio, que são poucos os interessados em comprar
um veleiro no papel, a maioria quer ver o produto, senti-lo,
navegá-lo. Eu acredito que a partir do momento em que os
estaleiros construam barcos de qualidade, e os exponham nos
salões náuticos do país, os compradores irão aparecer. O
interessado em comprar um veleiro novo deve ainda levar em conta
o custo dos equipamentos que ele terá que colocar no barco antes
de sair ao mar: motor, âncoras, cabos, equipamento de segurança,
rádio, bússola, etc...
Faça você mesmo
A opção de comprar um kit e
construir você mesmo é uma
característica do mercado nacional, dada pela falta de "barcos
na prateleira". Uma opção a ser analisada com cuidado se a sua
intenção é fazer longos cruzeiros. Quando a opção é um usado,
uma dúvida que costumeiramente ocorre é se vale à pena
desembolsar mais por um veleiro novo e bem conservado ou
economizar na compra e gastar posteriormente em reparos e
equipamentos. A minha escolha pessoal é a primeira: compre um
barco mais novo e equipado. Se o orçamento é curto, diminua o
tamanho do objeto desejado. E, principalmente, encontre um barco
que lhe permita conhecer o prazer do velejar. Já tive muitos
amigos que passaram meses correndo atrás de peças, mecânico,
pintor, marceneiro, etc., enquanto seu sonho de singrar os
oceanos esmorecia.
Evite dores de cabeça
Normalmente é o motor o
grande causador de dor de cabeça, não cometa o
engano de acreditar que um
veleiro não necessita motor. Já vai longe o tempo em que se
ancorava ao largo e o desembarque em terra era feito em batel.
Embora, hoje em dia, exista tecnologia para recuperar um barco
com osmose sem muitas
dificuldades, o custo dessa recuperação deve ser abatido do
preço da embarcação. Eu, antes de comprar um veleiro, o veria
dentro e fora d'água.
Dicas e atalhos
Uma boa dica é procurar um
proprietário que esteja saindo do ramo.
Ele pode lhe deixará milhares de pequenas coisas, como cartas
náuticas, pirotécnicos, peças de reposição, ferramentas, etc...
No barco de um velejador que está comprando outro veleiro, o
mais comum é encontrar buracos, onde até bem pouco tempo havia
um equipamento interessante. É um acordo de cavalheiros que
o que está parafusado pertence ao barco.
Lembre-se que um barco pequeno, leve e bem conservado, é bem
mais fácil de vender que um barco grande e pesado e que, no
quesito liquidez, um barco de fibra ganha longe de um de mesmo
tamanho em madeira ou aço. Um Ranger 26, um Brasília 32, ou um
Main 34, do começo da década de 80, não requer um grande
desembolso e – com um pouco de paciência – pode ser encontrado
em boas condições. Veleiros mais novos, necessitam,
obviamente, de um investimento inicial maior: um Samoa 29,
recém construído, um Delta 32, de 1998, e um Fast 360, ano 1995,
são algumas das opções disponíveis no mercado.
Não se esqueça que quanto maior o barco, maiores os custos de
docagem e manutenção. Um das dificuldades que o novo
proprietário poderá encontrar é a falta de marinas,
principalmente longe do eixo Rio – São Paulo. A verdade é que,
da mesma maneira que necessitamos de veleiros de qualidade
expostos nos salões náuticos do país, a costa brasileira
necessita de marinas bem posicionadas, com infra-estrutura de
abrigo e retirada de embarcações.
Fora do eixo Rio - São Paulo, na ausência de marinas, os iate
clubes cumprem essa função, além de oferecerem algumas vantagens
extras. Talvez a maior delas, seja a associação dos clubes, que
permite, por exemplo, ao sócio do Iate Clube da Bahia frequentar
o Iate Clube de Santos. O ponto negativo de um iate clube é a
necessidade de se tornar sócio e o custo adcional da manutenção
do próprio clube. De qualquer maneira, o custo com a guarda da
embarcação não pode ser negligenciado. Relacione a marina ou
iate clube mais próximo de sua casa, para não ter que passar
várias horas dirigindo toda vez que quiser velejar. Compare os
preços, que em geral estão vinculados ao tamanho da embarcação
em pés, e veja a infra-estrutura que a marina ou clube lhe
oferece. A questão da retirada do barco da água é de suma
importância, já que todo veleiro deve ser levantado ao menos uma
vez por ano.
Com relação à manutenção, o meu conselho é: do it yourself,
ou seja, faça você mesmo. A mão de obra náutica especializada
não pode ser barata, exige responsabilidade, competência e
experiência, e não é fácil de ser encontrada. Assim, a melhor
opção é que o proprietário da embarcação aprenda a mantê-la e
conhecê-la. Possuir um veleiro é um hobbie extremamente
prazeroso, velejá-lo com sabedoria um êxtase, mantê-lo faz parte
da brincadeira.
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Sergio
Caetano, formado em geologia, é skipper profissional,
proprietário e instrutor da Ilhavela - Escola de Vela Oceânica.
Para mais informações veja:
www.ilhavela.com.br
FONTE:
http://www.nautica.com.br
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