Comprando o primeiro barco
André Homem de Mello
Todo mundo que
tem um barco já passou por esta experiência. Alguns se deram bem, outros, nem
tanto e alguns até se deram muito mal. Mas, como devemos proceder para comprar
um barco e não se arrepender depois? Escolher e comprar um barco não é uma
tarefa fácil. Um barco não é um bem barato e o simples fato de não o ser, requer
muita atenção na hora da compra.
O primeiro passo é saber para quê você vai usá-lo
Dentre os potenciais compradores, há aqueles que já sabem o que querem,
entretanto, para a grande maioria, a escolha do primeiro barco é sempre
complicada porque nem sempre eles tem certeza do que irão fazer com o barco
(lazer, regata ou cruzeiro).
Se o comprador seguiu um ritmo normal de aprendizado, ou seja, velejou em
monotipos, fez os cursos de Arraes e Mestre amador e de Vela Oceânica, costuma
ler as revistas especializadas e já praticou em diferentes tipos de embarcações,
ele já terá uma boa noção do que ele irá fazer com o barco e quais as opções
disponíveis no mercado, mas mesmo assim, vale a pena ter cautela. A condição de
manutenção de uma embarcação não está relacionada ao nível de aprendizado de
quem irá comprá-la e sim em saber detectar a qualidade da mesma.
O estado de conservação e manutenção de um barco é muito importante por que mexe
com o bolso do comprador. Gastar todo o dinheiro disponível na compra e não
reservar um valor razoável para futuras manutenções (casco, velas, motor,
equipamentos, etc.) é coisa de principiante e pode comprometer seu futuro como
proprietário.
Os barcos de regata e cruzeiro são geralmente os que dão mais despesa. Se o
barco é para correr regatas, tenha em mente que haverá um desgaste muito grande
dos equipamentos, principalmente velas.
Se o barco é para cruzeiro, procure planejar os gastos necessários para equipar
o barco para esse fim (piloto de vento e/ou automático, radar, SSB, balsa, etc.)
Barcos que navegam em águas oceânicas precisam de uma série de equipamentos que
não são obrigatórios para regata e lazer.
Um dos pontos mais preocupantes nesta hora é a pressa em satisfazer um desejo de
consumo. O cliente geralmente fica cego querendo somente usufruir deste bem sem
pensar em questões mais praticas como estado de conservação, preço das peças de
reposição, custo de manutenção (travelift, estadia, materiais, mão-de-obra,
etc.) e principalmente valor de revenda futura.
Por tudo isso, consultar um especialista na área é fundamental. Hoje em dia
existem vários revendedores de barcos que podem ajudar na compra do barco ideal
para você.
Outra opção é a contratação de um inspetor ou survayor. Este profissional
realiza uma inspeção completa na embarcação que você desejar, checando itens que
são fundamentais para sua segurança na hora da compra. Esta figura é bem
diferente de um eventual amigo que já possui uma embarcação e irá lhe “ajudar”
na hora da compra. O survayor faz um trabalho profissional, ele é
contratado por você e trabalha a seu favor, lhe ajudando a decidir ou não pela
compra e ajudando até a negociar um preço melhor pelo seu “futuro” barco.
Bons ventos.
André Homem de Mello
Comprando o primeiro barco II
Caro leitor
gostaria de desculpar-me pela ausência. Desde outubro de 2005 estou morando em
Ilhabela e por falta de tempo (por incrível que pareça) e computador/internet,
não pude dar continuidade a minha coluna. Prometo, entretanto, recompensá-los.
Cuidados ao comprar um barco usado incluem uma boa checagem nas velas,
mastreação/ferragens, motor/sistema de propulsão e casco/quilha (itens mais
caros de uma embarcação) e itens também importantes como sistema elétrico e
hidráulico, interior (madeiramento, cozinha, banheiro e cabines), instrumentos e
salvatagem. Ao avaliar uma embarcação, também vale a pena contratar um mecânico
de sua confiança para uma inspeção no motor e reversor e fazer ainda um “teste
de vela”. É importante também procurar saber todo o histórico do barco.
Depois de feito o dever de casa, pode-se estimar quanto será necessário gastar
para deixar a embarcação em perfeito estado de manutenção, para, com este laudo,
negociar um preço mais justo.
Todo este cuidado talvez não fosse necessário se tivéssemos uma indústria
náutica de vela em pleno funcionamento. Infelizmente, devido aos altos e baixos
da nossa economia, nossos principais estaleiros de vela faliram. Ficamos por um
longo período sem estaleiros que produzissem barcos em série, com ganho de
escala e, conseqüentemente, menores preços. Salvo raras exceções (parabéns a
eles), poucos barcos foram produzidos no Brasil. O que se construiu no Brasil,
durante este período de “vacas magras”, foi basicamente feito “por encomenda”.
Outro problema que restringiu e muito o crescimento do mercado de barcos à vela
no Brasil, foi os altos custos para importação (IPI, ICMS e Imposto de
Importação) que, de uma forma bem clara, tornou proibitivo a importação de
barcos à vela para o Brasil. Para piorar ainda mais esta situação, o Governo
Lula, assim que tomou posse, criou os impostos PIS e Cofins, onerando ainda mais
a importação e impossibilitando o que já era impossível. Outra medida implantada
no governo Lula foi o aumento do IPI de 10 para 25% para barcos acima de 40 pés
sob a alegação de que embarcações acima de 40 pés são consideradas “artigo de
luxo”.
Um fato que ajudou e ao mesmo tempo incrementou o mercado, foi a liminar para o
não pagamento do ICMS, entre os anos de 1999 e 2002. Várias embarcações
importadas entraram no Brasil neste período, contribuindo para a melhoria do que
era produzido aqui e melhorando também a percepção do mercado no quesito
qualidade.
É claro que no nosso mercado atual existem também embarcações em perfeito estado
de conservação e manutenção. Existem muitos barcos produzidos na época de “vacas
gordas” – se é que podemos dizer assim – que já passaram por uma reforma
completa, isso para não chamar de restauração. Só para dar um exemplo, em
qualquer país de primeiro mundo, recomenda-se a troca completa do estaiamento de
uma embarcação à vela, acima dos 12 anos de idade. Deveríamos nos preocupar mais
com o item manutenção por ela estar diretamente ligada a nossa segurança. Barcos
que já passaram por uma reforma, têm garantido seu valor de revenda e são bem
mais fáceis de se comercializar. Pena que são poucos.
Infelizmente, existem muitos barcos no mercado brasileiro, que não foram
cuidados como deviam, não por culpa somente dos seus proprietários, mas por
culpa do nosso governo, que, além de dificultar, burocratizando a abertura de
novos negócios, também impõe proibitivos impostos para importação de peças e
equipamentos. Isso sem falar na regulamentação do setor que até hoje não
reconhece o emprego de marinheiro, dificultando assim a inclusão e a
profissionalização do setor.
Graças a uma economia e a uma inflação mais estáveis, estamos vivendo neste
momento uma leve recuperação do mercado de barcos a vela no Brasil. Os
estaleiros, amadores ou profissionais que conseguiram sobreviver nos últimos
anos estão começando a colher os frutos de tanta dedicação e esforço.
Novos investimentos prometem incrementar o nosso setor. Um exemplo concreto é o
lançamento do primeiro RO 400 produzido no Brasil. Havia muitos anos que não
tínhamos um investimento desse porte na nossa indústria. A fábrica, instalada em
Joinville, num condomínio industrial de alto padrão, já vendeu 12 unidades do RO
400 só para o mercado interno e pretende implantar uma linha completa de
veleiros entre 26 e 40 pés, com o objetivo principal de atender o mercado
externo pelo sistema de drawback, mas também atender o mercado interno, tão
carente de novas embarcações.
Todos nós, amantes da vela, devemos dar um maior apoio ao setor, valorizando o
que é produzido aqui.
Bons ventos.
André Homem de Mello
18/04/2006
Comprando o primeiro barco III
Uma das
principais considerações ao comprar um barco deverá ser: o que você deseja fazer
com ele? A resposta compreende pelo três diferentes tipos de uso, ou seja,
regata, lazer ou cruzeiro.
Um barco projetado e construído para regata leva em conta uma relação peso x
desempenho muito diferente de um barco construído para cruzeiro. Veja bem que o
barco de cruzeiro a que me refiro aqui é um barco feito para viajar longas
distancias, atravessar oceanos, ancorar em locais de difícil acesso (dentro de
recifes de corais, pequenas baias e perto da praia) e na maioria das vezes com
pouca tripulação.
É comum vermos pessoas criticando um determinado tipo de barco de cruzeiro pelo
mau desempenho em relação a velocidade e ao ângulo de orça. Barcos de cruzeiro
não são feitos para “andar” rápido, bem como seu casco não é projetado para
velejar com ventos de proa e sim de popa. As rotas mais tradicionais de volta ao
mundo são planejadas em função da direção dos ventos, ou seja, durante uma
viagem ao redor do mundo, na maior parte do tempo você encontrará ventos de
través e popa, seguindo os ventos alísios, acima e abaixo da Linha do Equador.
As principais características e qualidades de um barco de cruzeiro estão na sua
capacidade de armazenar combustível, água, mantimentos e equipamentos, no
conforto interno (cabines, banheiros, cozinha e salão) e na facilidade de manejo
(área vélica menor) com a maioria das manobras sendo realizadas de dentro do
cockpit.
É importante salientar que a maior parte do público que está fazendo uma volta
ao mundo é formada de casais, sem filhos – formados e já encaminhados – e com
uma certa idade. Engana-se aquele que vai dar uma volta ao mundo e acha que vai
encontrar muita gente jovem ao longo do caminho. A maioria dessas pessoas
optaram por um estilo de vida diferente do que elas tiveram durante suas vidas
em terra firme e por isso, não tem pressa. Outra consideração importante é a
dificuldade de se conseguir tripulação nas diversas ancoragens e marinas ao
longo do caminho. Não que não haja. Há sim muita gente querendo fazer parte da
tripulação de um barco fazendo uma viagem volta ao mundo, mas muitas vezes
selecionar um tripulante e acertar na escolha não é uma tarefa tão fácil como
parece. Na maioria dos casos de problemas a bordo, a tripulação é responsável
por gerar as maiores preocupações aos seus comandantes e por isso, fazer a
viagem com pouca, mas uma confiável tripulação é, na maioria das vezes, mais
recomendado.
Barcos de regata, por outro lado, são projetados para ter o melhor desempenho
possível, ou seja, área vélica maior, mastreação mais alta e fina, pouco
conforto e conseqüentemente pouco peso. Uma das principais características de um
barco de regata é o tipo de quilha que eles usam. Elas são geralmente finas e
longas (alto calado) e muitas vezes possuem um bulbo na sua extremidade.
Outra concepção relativamente nova no mercado mundial de barcos a vela é a do
“cruzeiro rápido”. Estes barcos procuram mesclar as características de um barco
regata com um barco de cruzeiro para que uma travessia oceânica seja feita mais
rápida, mas com conforto e segurança. É importante frisar, entretanto, que com
um barco desse tipo você precisara de uma boa tripulação a bordo para manejar o
barco com a agilidade que ele requer.
Compreendido os dois extremos, vamos ao que está no meio, ou seja, os barcos
produzidos para lazer. É importante frisar aqui que este é o meu entendimento do
mercado atual de barcos a vela. Entendo como lazer tanto o barco para regata
como o para cruzeiro. Qualquer pessoa pode querer curtir uma regatinha, como
também um cruzeiro nos finais de semana e feriados. Esses barcos são projetados
para ter duas versões (regata/cruzeiro) que o proprietário irá escolher na hora
da compra, ou seja, uma versão para regata, com quilha, mastro e área vélica
maiores e uma versão para cruzeiro com quilha, mastro e área vélica menores.
Ambas versões satisfazem o seu público alvo, mas tenha em mente que, com um
barco desse tipo, você nunca irá ganhar um campeonato importante ou fazer um
cruzeiro ao redor do mundo, com conforto e segurança. Não que não seja possível.
Possível é, desde que você tenha uma tripulação e os equipamentos adequados, mas
se você é um sério regateiro ou um sério cruzeirista procure um barco dentro das
características para que você irá usa-lo.
Bons ventos!
André
Homem de Mello
FONTE: www.nautica.com.br